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O DESPERTAR DO SUJEITO

 

Por Jerri Almeida

O imperativo da vida coloca o sujeito como ser co-criador-criativo. Na prática, o ser se constrói e autoafirma através de processo que envolve, desde a experiência (individual e social), o conhecimento intelectual e os sentimentos. Na medida em que o sujeito perde suas certezas metafísicas, como advertiu Jung, ele termina por mergulhar – e por extensão a própria humanidade – numa crise de identidade consigo mesmo.

Nesse sentido, o processo de transformação social da humanidade, não pode ser desvinculado do processo de evolução espiritual do próprio homem. Quanto mais o sujeito se cerca de elementos sobre sua condição profunda, menos “vazio” vive. Na falta desses elementos, o ser humano (que tenta superar esse vazio) termina preenchendo seu “espaço mental” com conquistas externas, importantes, mas sempre vulneráveis.

Na segunda metade do século XIX, Allan Kardec analisou as três fases do Espiritismo e mencionou, em discurso durante a Viagem Espírita de 1862, que a terceira fase seria a da “transformação social.” Um ano depois, ao publicar na Revista Espírita de 1863 , escreveria a respeito da influência do pensamento espírita na sociedade humana, identificando, agora, seis períodos pelos quais a Doutrina dos Espíritos passaria:

1.Período da Curiosidade

2.Período Filosófico

3.Período da Luta

4.Período Religioso

5.Período Intermediário

6.Período da Renovação Social

O último período mencionado pelo codificador é o que, nesse momento, nos interessa. Kardec volta a insistir numa “renovação social.” Tema que, obviamente, ele já havia tratado em O Livro dos Espíritos, e retomaria numa análise mais detalhada em A Gênese, onde afirmou:

A Humanidade tem realizado, até ao presente, incontestáveis progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do bem-estar material. Resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o de fazerem que entre si reinem a caridade, a fraternidade, a solidariedade, que lhes assegurem o bem-estar moral. Não poderiam consegui-lo nem com as suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas que, havendo dado tudo o que comportavam, seriam hoje um entrave. Já não é somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessitam, mas de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho. [Grifos meus]

Allan Kardec reconhece o valor da inteligência, ou da técnica, mas enfatiza a necessidade de “elevar o sentimento”. A noção de sentimento, nesse caso, não implica numa negação do sujeito enquanto ser desejante, mas numa necessária afirmação da sensibilidade, de alguém que consegue perceber o outro, sem ser arrogante. Essa afirmação de Kardec, também, nos leva a pensar sobre a relação entre sentimento-progresso-pensamento, na medida em que o processo de transformação social envolve, de forma determinante, a condição espiritual. Quando os sentimentos nobres iluminam o pensamento, o progresso global supera seus vazios e paradoxos.

Mas também, Kardec ofereceu mais informações sobre o caráter dessa transformação: “Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso moral.”. A moral é uma questão central dentro dessa ordem de transformações sociais, pois está, também, associada aos sentimentos.

Sabemos que o Espiritismo, no sentido filosófico, compreende a moral enquanto regra de bem proceder. Mas a idéia de moral aqui definida, abarca também o sentido ético, ou seja, essas “regras” devem vir de “dentro” do sujeito. Nesse caso, estamos dizendo que essas regras são “princípios de valores”, conquistados pelo próprio sujeito/espírito. Portanto, a moral está associada àquilo que podemos chamar de “sentimentos de valor universal”.

Nesse sentido lembremos Léon Denis quando escreveu que: “o estado social não sendo em seu conjunto senão o resultado dos valores individuais, importa antes de tudo de obstinar-nos nessa luta contra nossos defeitos, nossas paixões, nossos interesses egoístas. Enquanto não tivermos vencido o ódio, a inveja, a ignorância, não se poderá estabelecer a paz, a fraternidade, a justiça entre os homens; e a solução dos problemas sociais permanecerá incerta e precária.”

Somos sujeitos da história. Vivemos, é bem verdade, uma crise civilizacional que nos fornecerá novos elementos para retomarmos valores atemporais, esquecidos nas entranhas da pós-modernidade.

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