Pular para o conteúdo principal

O ESTADO SOCIAL

 

 


 Por Doris Gandres

Nosso mundo atualmente fervilha, em todos os sentidos, homens e natureza. Valores morais parecem se esfacelar contra conceitos imediatistas de poder, de prazeres equivocados, de felicidade ilusória e enganosa.

O progresso técnico e tecnológico acelerado, o alto incentivo dado ao desenvolvimento da inteligência com o objetivo de superação, não de si mesmo, mas sobretudo do próximo, transformando praticamente todo tipo de relação e atividade numa competição muitas vezes desleal, desviou o homem ainda imaturo espiritualmente de seus verdadeiros interesses, de sua verdadeira finalidade e destinação.

A aparência, física e de condições materiais, tornou-se a meta principal. É preciso parecer bem sucedido independentemente da realidade. As academias se multiplicam, a indústria de cosméticos cresce mesmo diante da crise econômica e o nosso país já ocupa o segundo lugar em número de cirurgias plásticas, porque não se pode envelhecer naturalmente...

“Parece que assistimos a um começo de desagregação da sociedade. O cimento que liga os elementos do edifício, isto é, o espírito de família, a disciplina social, o patriotismo, o sentimento religioso etc., se enfraquecem e se decompõem (...) O estado social não sendo, em seu conjunto, senão o resultado dos valores individuais, importa, antes de tudo, em obstinar-nos nessa luta contra os nossos defeitos, nossas paixões, nossos interesses egoístas. Enquanto não tivermos vencido o ódio, a inveja, a ignorância, não se poderá estabelecer a paz, a fraternidade, a justiça entre os homens; e a solução dos problemas sociais permanecerá incerta e precária”. (1)

As reflexões acima são de Léon Denis, em seu livro Socialismo e Espiritismo – livro esse que sabemos ser de muito pouco conhecimento dos espíritas, apesar da seriedade e do renome do ilustre e respeitado autor.

A Doutrina Espírita apresenta um profundo e vasto aspecto social em seu escopo, fartamente expresso n’O Livro dos Espíritos, particularmente na sua terceira parte, nas Leis Morais, como muito apropriadamente Allan Kardec denominou a exposição didática das leis naturais, divinas. Também n’O Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos com facilidade, desde que abertos a tanto, muitos ensinamentos com fundamento social: Bem Aventurados os Mansos e Pacíficos (Cap.IX); Bem Aventurados os Misericordiosos (Cap.X); Que a Mão Esquerda não saiba o que faz a Mão Direita (Cap.XIII); Servir a Deus e a Mamon (Cap.XVI) e outros tantos...

Deolindo Amorim, outro espírita consagrado pelo seu trabalho doutrinário, afirma que: “O pensamento social da Doutrina Espírita ainda não foi descoberto em sua plenitude a não ser pelos que se interessam por esta área de estudos” (...) “A Doutrina reprova a omissão ou o enclausuramento deliberado para fugir do mundo, pois devemos participar e, assim, oferecer à sociedade a nossa cota de serviço. Como poderemos trabalhar pelo melhoramento do mundo se nos afastamos ou nos alienamos?” (2)

Em todos os tempos essas reflexões foram válidas e hoje mais do que nunca, visto que hoje já dispomos de suficiente entendimento, ainda que falho em numerosos pontos, para avaliar e reavaliar nossas posturas diante do perigo de uma derrocada social iminente – fecharmos olhos e ouvidos ao clamor de renovação que nos lançam os Benfeitores Espirituais – encarnados e desencarnados – nos causará um triste e doloroso atraso em nosso progresso espiritual, um recomeço ainda muito mais difícil do que possamos supor. Moralmente estamos marcando passo há muito tempo ou avançando à velocidade da tartaruga.

“O aperfeiçoamento da Humanidade segue uma marcha regular e lenta, que resulta da força das coisas; mas quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca, de tempos em tempos, um abalo físico ou moral, que o transforma (3) ... A Humanidade progride através dos indivíduos que se melhoram pouco a pouco e se esclarecem (4) ... A questão social não tem, pois, por ponto de partida, a forma de tal ou qual instituição; ela está toda no melhoramento moral dos indivíduos e das massas (5).

Para corroborar a visão social esclarecida do Espiritismo, vou encerrar com Léon Denis, no mesmo livro citado, para que não se pense que aqui transcrevo minha opinião pessoal: “Nosso mundo, dissemos precedentemente, é arrastado por uma corrente poderosa para uma era de transformação social. O Socialismo, qualquer seja a opinião que dele se faça, que se o aprove ou que se o condene, tem perseguido seu caminho, a despeito das resistências, e se tornou uma força com a qual é preciso contar (...) O Socialismo do futuro será o socialismo espiritualista pois realizará um ideal baseado no desenvolvimento da mais alta faculdade da alma. Só ele poderá dissipar os prejuízos de castas, de raças, de cores, de religiões e fazer nascer um sentimento profundo de fraternidade única”. 

Conhecemos o maior de todos os socialistas, não podemos negar: Jesus de Nazaré, que não fazia nenhuma distinção entre nenhuma das criaturas, a quem quer que fosse abria seu coração, estendia sua mão e ofertava seu amor incondicional...

 

 

 

Fontes bibliográficas

 

    Léon Denis – Socialismo e Espiritismo

    Deolindo Amorim – O Espiritismo e os Problemas Humanos

    Allan Kardec – O Livro dos Espíritos q.783

    Allan Kardec – O Livro dos Espíritos q.789

    Allan Kardec – Obras Póstumas/Credo Espírita

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

A AUDITORIA DA ALMA: VIDAS PRETÉRITAS, FORMA-MERCADORIA E A ÉTICA DO EU-TU

    Por Jorge Luiz   O Mito da Identidade Intacta             Antes mesmo de pronunciarmos a primeira palavra ou esboçarmos o primeiro pensamento reflexivo, já fomos batizados. O nome próprio — esse signo fundamental que carrega nossa existência jurídica e social — nos é atribuído pela expectativa, pelo gosto e pelas projeções do outro. Somos nomeados no escuro. Para muitos, no entanto, o amadurecimento da consciência traz consigo um estranhamento visceral diante desse rótulo herdado. Descobre-se que a roupagem simbólica recebida no berço não se ajusta à pele de quem nos tornamos, levando um número crescente de pessoas a recorrer ao Direito Civil para alterar aquilo que parecia ser a mais imutável das certezas: a própria alcunha.             Talvez houvesse um ganho civilizatório profundo se a consolidação do nome dependesse de uma validação posterior, um ...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.

A DEMOCRACIA DO TEMPO: A ÚNICA IGUALDADE QUE NINGUÉM PODE EVITAR

  Por Wilson Garcia Existe uma verdade diante da qual desaparecem todas as diferenças: a trajetória humana é finita, embora se desenrole dentro da infinitude.   Todos passam. Os cantores e os poetas. Os artistas e os artesãos. Os cientistas e os agricultores. Os presidentes e os operários. Os milionários e os pobres. Os anônimos e os famosos. Os homens e as mulheres que ocupam as manchetes dos jornais, assim como aqueles cujos nomes jamais serão registrados pela história. Há democracias construídas pelos homens. Há uma, porém, que independe de governos, leis ou ideologias: a democracia do tempo. Diante dela, todos comparecemos em absoluta igualdade.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

A HISTÓRIA DA ÁRVORE GENEROSA

                                                    Para os que acham a árvore masoquista Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito. Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro: “’...

É ASSIM!

  Por Alexandre Júnior É assim que transborda! A música ecoa no litoral da alma, mansamente avança pelos recôncavos mais íntimos de nossos convexos, é assim que a alma treme, a sensibilidade pulula festejando o encontro do eu com a arte! É assim que conseguimos de alguma forma avançarmos vivendo, sentindo o efeito do tempo, que implacável, interroga todas as nossas certezas, nada esta estabelecido, não há mais convicções imortais, o tempo se encarrega de fazer ruir as mais concretas das arrogâncias.

CARPE DIEM!

“Deus pede hoje estrita conta do meu tempo E eu vou, do meu tempo dar-lhe conta. Mas como dar, sem tempo, tanto conta Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? Frei Antonio das Chagas (1631-1682) Por Jorge Luiz (*)               O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou no dia 18 último, resultado de pesquisa que revela que em uma escala de 0 a 10, os brasileiros dão em média 7,1 para suas vidas. Esse nível colocaria o Brasil em 16º entre os 147 países pesquisados pela Gallup World Poll, que apontava uma felicidade média de 6,8 no Brasil em 2010.             O Nordeste é a região mais feliz do Brasil, com nota média de 7,38. Se fosse considerado um país, nós nordestinos ficaríamos em 9º na classificação global, entre belgas e finlandeses. Apesar de ser considerada a região mais rica do Brasil, o Sudoeste foi con...

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

DEUS¹

  No átimo do segundo em que Deus se revela, o coração escorrega no compasso saltando um tom acima de seu ritmo. Emociona-se o ser humano ao se saber seguro por Aquele que é maior e mais pleno. Entoa, então, um cântico de louvor e a oração musicada faz tremer a alma do crente que, sem muito esforço, sente Deus em si.