Pular para o conteúdo principal

A DEMOCRACIA, A CIDADANIA E A LEI DE CAUSA E EFEITO

 


             Uma eleitora recentemente fez uma mea-culpa diante das atrocidades praticadas pelo governo do seu eleito nas urnas e pediu perdão pelos crimes cometidos pelo candidato, em seu nome. Até onde um eleitor, no exercício pleno da cidadania, pode responder pela lei de causa e efeito nessas circunstâncias?

            Esse é exemplo prático resultante dos ataques que os fundamentos da democracia vêm sofrendo no Brasil e no mundo. E essa cruzada é de ordem espiritual, até porque os ideais democráticos são de inspiração evangélica e, sem ela, a democracia não poderá subsistir, conforme assinala Jacques Maritain (1872-1973), filósofo francês de orientação católica cujos pensamentos influenciaram o conceito de democracia cristã, no opúsculo Cristianismo e Democracia.Expressa-se:

 

“(...) vimos durante um século as forças dirigentes das democracias modernas renegarem o Evangelho e o cristianismo em nome da liberdade humana, ao passo que as forças dirigentes das camadas sociais cristãs combatiam durante um século as aspirações democráticas em nome da religião.”

 

            A obra de Maritain foi escrita em 1943. Nela, o filósofo faz referência à forma que a burguesia dita livre-pensadora esmagou, simultaneamente, o movimento operário de 1848 e a chama que ele proporcionava; e a força social da religião agiu em favor da burguesia, como anteriormente havia agido e age em favor da política do trono e do altar.

            O século XX se foi e a realidade continua a mesma. Os efeitos da pandemia vêm agudizando ainda mais esse processo.

            A sociedade humana não está compreendendo o propósito provacional que a pandemia lhe está submetendo. E nem mesmo todos os espíritas têm esse alcance e nem as repercussões da sua inserção nos desdobramentos da sua gestão e dos ataques à democracia.

            A pandemia e as dezenas de mortes que ela provoca não terão termo enquanto não ocorra no mundo a purificação das relações econômico-financeiras, dos pensamentos, das suas filosofias de vida e da política.

            E essas repercussões, obviamente, estão intrinsecamente relacionadas com o exercício da cidadania.

O Espírito André Luiz, na obra Evolução em Dois Mundos, assim se expressa, e ajuda nessa compreensão:

 

“Todos os nossos sentimentos e pensamentos, palavras e obras, neles se refletem, gerando consequências felizes, pelas quais entramos na intimidade da luz ou da sombra, da alegria ou do sofrimento.”

 

Allan Kardec, em “A Gênese”, acerca dos fluidos, demonstra como o pensamento plasticiza a ideia e reflete no envoltório perispirítico, como num espelho, toma nele corpo e aí de certo modo se fotografa. Importante lembrar que nos evangelhos são encontradas várias passagens onde os evangelistas assim se referem a Jesus: “... Mas Jesus, vendo o pensamento de seus corações...” Embora as leis escritas não punam tal situação, não ocorre o mesmo com as leis morais.

 

         O Espírito Clélia Duplantier, em mensagem inserta em Obras Póstumas, assim se expressa acerca da responsabilidade de cada Espírito, enquanto encarnado:

 

 

“Três caracteres há em todo homem: o do indivíduo, do ser em si mesmo; o de membro da família e, finalmente, o de cidadão. Sob cada uma dessas três faces pode ele ser criminoso e virtuoso, isto é, pode ser virtuoso como pai de família, ao mesmo tempo que criminoso como cidadão e reciprocamente. Daí as situações especiais que para si cria nas suas sucessivas existências.”

 

            Apesar de o Artigo 5º da Constituição Federal contemplar os direitos civis, isto não quer dizer que o exercício da cidadania seja pleno. As desigualdades sociais são profundas no Brasil, o que se sucede também com a cidadania. O voto talvez seja o único item dos direitos civis que torna os cidadãos brasileiros iguais. E ainda assim, o voto no Brasil nunca foi sinônimo de democracia.

            Para que o voto seja realmente uma ferramenta cidadã, é preciso que o eleitor tenha uma consciência política; é necessário haver bons eleitores, sem esquecer que as mídias corporativas são decisivas nesse processo, o que não acontece no Brasil. O império da mentira (fakenews), eufemisticamente chamada de pós-verdade, com os mecanismos das redes sociais, violenta a consciência da cidadania, atingindo principalmente as camadas desamparadas culturalmente. É a corrupção do pensamento.

Os candidatos também não têm nenhum compromisso com os eleitores, a não ser com os grupos representativos que os financiam. Tem-se hoje no congresso a “bancada da bala”, “da bíblia” “do agronegócio”, e assim sucessivamente.

            Como se vê, são atenuantes por demais compreensíveis para o exercício correto da cidadania. No entanto, os pensamentos e sentimentos dos eleitores e eleitos ressoam energeticamente em sintonia e afinidade repercutidas no contexto da lei de causa e efeito.

            O Espírito Clélia Duplantier realça esse aspecto:

 

“Depois, como já o dissemos, há as faltas do indivíduo e as do cidadão; a expiação de umas não isenta da expiação das outras, pois que toda dívida tem que ser paga até a última moeda. As virtudes da vida privada diferem das da vida pública.”

           

            Todos como cidadãos, indiscutivelmente, responderão pelos flagelos sociais no contexto de sua família, cidade, estado e nação. Isto é um fato. Por isso, o ativismo espírita exige de cada um de nós uma ação política(1) contundente. Obviamente que aqui não se discute a política partidária.

            Um fato que merece destaque na atitude dessa eleitora é a expressão de arrependimento, que deve seguir à expiação e à reparação, fundamentos do Código Penal da Vida Futura, desenvolvido por Allan Kardec na obra “O Céu e o Inferno.”

         A complexidade desse assunto passa por muitas variáveis. O que dizer – outro exemplo – daqueles que mesmo diante da tirania de um representante político ainda continuem apoiando esse modelo de governança?

            Todas essas variáveis convergem para a mais significativa e definidora para os efeitos da reciprocidade das Leis Morais e se encontram na questão nº 621 de O Livro dos Espíritos, onde os Luminares da Revelação assinalam que as leis de Deus estão insculpidas na Consciência de cada indivíduo.

            Allan Kardec, em A Gênese, no capítulo citado acima, exemplifica que alguém ao idealizar assassinar alguém, mesmo não levando a efeito o ato, não o isenta da culpa diante das leis morais. Portanto, se é responsável não somente pelas atitudes, mas também pelos sentimentos, pensamentos e palavras.

            Óbvio, portanto, que agravantes e atenuantes serão considerados. Repercussões ocorrerão, apesar de o Brasil ter democracia como exercício de retórica em todos os seus fundamentos, inclusive o voto.

            Lembre-se, por fim, que a humanidade está, permanentemente, submetida à Lei do Progresso, aquele ou aquela que de alguma forma contribua para entravar a marcha do progresso será alcançado pelas Leis Morais, em suas particularidades – questão nº 781 “a”, de O L.E.

 

Referências:

AMORIM, Deolindo. Análises espíritas. Rio de Janeiro: FEB, 1993.

KARDEC, Allan. A Gênese. São Paulo: LAKE, 2010.

____________. O Livro dos espíritos. São Paulo: LAKE, 2000.

____________. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

MARITAIN, Jacques. Cristianismo e democracia. Rio de Janeiro: AGIR, 1949.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

UMA PROSA COM DIVALDO

“E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo”. – (Lucas, 3:14). Ao longo dos nossos estudos evangélico-doutrinários, percebemos que a história do Cristianismo, bem como a do Espiritismo, são ricas de passagens significativas relacionadas a militares. E estes, mesmo empunhando uma arma como instrumento profissional, mantiveram, acima de tudo, a sua fé em Deus e confiança em Jesus, Modelo e Guia de todos os cristãos sinceros, independente das suas atribuições. Percebemos também que o militar espírita, longe de se enganar como sendo um privilegiado possuidor de poderes temporais, diferenciado das demais pessoas, estará sempre atento para com as suas responsabilidades respeitando, acima de tudo, as Superiores Leis da Vida, pelas quais se orienta. Retirando toda e qualquer pretensão e ostentação, respeitando os vultos conhecidos e desconhecidos da his...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

PESTALOZZI E KARDEC - QUEM É MESTRE DE QUEM?¹

Por Dora Incontri (*) A relação de Pestalozzi com seu discípulo Rivail não está documentada, provavelmente por mais uma das conspirações do silêncio que pesquisadores e historiadores impõem aos praticantes da heresia espírita ou espiritualista. Digo isto, porque há 13 volumes de cartas de Pestalozzi a amigos, familiares, discípulos, reis, aristocratas, intelectuais da Europa inteira. Há um 14º volume, recentemente publicado, que são cartas de amigos a Pestalozzi. Em nenhum deles há uma única carta de Pestalozzi a Rivail ou vice-versa. Pestalozzi sonhava implantar seu método na França, a ponto de ter tido uma entrevista com o próprio Napoleão Bonaparte, que aliás se mostrou insensível aos seus planos. Escreveu em 1826 um pequeno folheto sobre suas ideias em francês. Seria quase impossível que não trocasse sequer um bilhete com Rivail, que se assinava seu discípulo e se esforçava por divulgar seu método em Paris. Pestalozzi, com seu caráter emotivo e amoroso, não era de ...

MORAL À LUZ DO ESPIRITISMO

  Por Doris Gandres                                         A definição de moral, à luz dos princípios espiritistas, está transcrita na resposta à q.629 do Livro dos Espíritos – “moral é a regra da boa conduta e, portanto, da distinção entre o bem e o mal. O homem se conduz bem quando faz tudo tendo em vista o bem e para o bem de todos.”             Certamente ainda estamos um tanto longe de visar estritamente o bem e não as vantagens pessoais e, dificilmente, particularmente o bem de todos...             José Herculano, em seu comentário à resposta da q.636 do mesmo livro, na edição por ele traduzida, afirma que “os sociólogos confundiram moral e costumes”; e conclui: “A moral relativa é a convencional, enquanto a moral absoluta é a ditada pela aspi...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PODE NOS TORNAR PESSOAS MELHORES?

      Por Wilson Garcia Acumulamos poder antes de acumular sabedoria suficiente para utilizá-lo plenamente. Há pouco tempo, a pergunta pareceria ficção científica. Hoje, ela surge naturalmente em salas de aula, ambientes de trabalho, grupos religiosos e até nas conversas familiares: pode a Inteligência Artificial nos ajudar a sermos pessoas melhores? A questão é fascinante porque toca simultaneamente dois dos maiores desafios da humanidade contemporânea: o avanço tecnológico e a busca por sentido. Nunca dispusemos de tanto conhecimento acumulado, de tantas ferramentas de comunicação e de tamanha capacidade de processamento de informações. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão urgente refletir sobre o que significa ser humano.

09.10 - O AUTO-DE-FÉ E A REENCARNAÇÃO DO BISPO DE BARCELONA¹ (REPOSTAGEM)

            Por Jorge Luiz     “Espíritas de todos os países! Não esqueçais esta data: 9 de outubro de 1861; será marcada nos fastos do Espiritismo. Que ela seja para vós um dia de festa, e não de luto, porque é a garantia de vosso próximo triunfo!”  (Allan Kardec)                    Cento e sessenta e quatro anos passados do Auto-de-Fé de Barcelona, um dos últimos atos do Santo Ofício, na Espanha.             O episódio culminou com a apreensão e queima de 300 volumes e brochuras sobre o Espiritismo - enviados por Allan Kardec ao livreiro Maurice Lachâtre - por ordem do bispo de Barcelona, D. Antonio Parlau y Termens, que assim sentenciou: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outr...

A ANATOMIA DE UM ABANDONO: DO CAPITALISMO DESTRUTIVO À TEOLOGIA DO CUIDADO

    Por Jorge Luiz.            O Corpo como Sentença Político-Espiritual A obra literária “Quem Matou meu Pai” , de Édouard Louis, é um monólogo biográfico nascido de uma dor visceral. O relato parte do encontro com seu pai — um homem que, após uma vida de trabalho manual na fábrica e um grave acidente laboral, encontra-se doente, com dificuldades para andar e respirar, reduzido a uma "invalidez" física. Esse corpo quebrado é o ponto de partida para que o autor, com uma voz apaixonada e urgente, questione os culpados pela destruição da saúde e da dignidade do seu progenitor.             Na realidade, o relato de Louis faz-nos reconhecer, na sua história, a trajetória de milhões de indivíduos e as “digitais do poder” na anatomia da vida quotidiana. É um relato sobre a luta de classes, o afeto e o apagamento — um grito que ecoa em um tempo em que a gestão técnica tenta silenciar o...

O DÓLMEN DE KARDEC

31 de março de 1869  A llan Kardec ultimava as providências de mudança de endereço. A partir de 01 de abril de 1869, o escritório de expedição e assinatura da Revista Espírita seria transferido para a sede da Livraria Espírita, à rua de Lille, nº 7 , onde também, provisoriamente, funcionaria a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Na mesma data, os escritórios da redação e o domicílio pessoal de Allan Kardec seriam transferidos para a Avenue et Vila Ségur, nº 39, onde Kardec tinha casa de sua propriedade desde 1860. Entremeando onze e doze horas, quando atendia um caixeiro de livraria, caiu pesadamente ao solo, fulminado pela ruptura de um aneurisma. Aos 65 anos incompletos, desencarnava em Paris, Allan Kardec.             Sr. Muller, amigo de Kardec, um dos primeiros a chegar à sua residência, assim descreve em trecho de telegrama enviado: “Tudo isto era triste, e, entretanto, um sentimento d...

É HORA DE ESPERANÇARMOS!

    Pé de mamão rompe concreto e brota em paredão de viaduto no DF (fonte g1)   Por Alexandre Júnior Precisamos realmente compreender o que significa este momento e o quanto é importante refletirmos sobre o resultado das urnas. Não é momento de desespero e sim de validarmos o esperançar! A História do Brasil é feita de invasão, colonização, escravização, exploração e morte. Seria ingenuidade nossa imaginarmos que este tipo de política não exerce influência na formação do nosso povo.