Pular para o conteúdo principal

AINDA VALE SEGUIR KARDEC DEPOIS DE 215 ANOS DE SEU NASCIMENTO?


 

 

Homenagear Kardec no dia do seu aniversário é tecer reflexões sobre a pertinência de ainda nos dizermos espíritas kardecistas em pleno século XXI, quando muitas das ideias defendidas em seus livros estão hoje distantes do horizonte acadêmico, rejeitadas e consideradas envelhecidas pela filosofia contemporânea.

Kardec permaneceu no limbo da ciência, da filosofia e da espiritualidade. Filósofos não o reconhecem como tal, cientistas declaram com desprezo que o espiritismo é uma pseudociência e as tradições espirituais muitas vezes excluem o espiritismo de um reconhecimento para um diálogo.

Então, ainda vale seguir Kardec?


A questão se resume no seguinte: ou sobrevivemos à morte e podemos nos comunicar com os que ficaram ou a morte é o final de tudo. Admitida e primeira hipótese, as ideias que Kardec dela derivou – e que hoje são banidas da filosofia contemporânea – podem ser defendidas facilmente. Entre elas, a existência de Deus, o evolucionismo, com uma teleologia na história e da natureza, uma conexão espiritual entre todos os seres do universo, uma ética de se colocar os valores espirituais acima da ganância terrena, e assim por diante.

Kardec pensava haver reunido evidências suficientes de que a vida continua e de que os espíritos se comunicam. Outros depois dele percorreram o mesmo caminho na segunda metade do século XIX e início do século XX e chegaram à mesma conclusão, como William Crookes, Russel Wallace, Gustave Geley, Friedrich Zölnner e tantos mais. No século XX, temos, por exemplo, a importante pesquisa de Ian Stevenson, com robustas evidências da reencarnação. Mas esses e outros pesquisadores de ontem e de hoje foram tão silenciados, ignorados e enjeitados quanto Kardec. A ciência chamada mainstream não abre espaço para esse tipo de pesquisa, porque ela fere paradigmas fortemente estabelecidos, porque não é uma ciência fácil de se fazer no controle e na repetição dos fenômenos mediúnicos, porque não é uma ciência que traga inovações tecnológicas ou produtos lucrativos e muito menos prestígio acadêmico. Talvez haja outras hipóteses explicativas dessa exclusão desdenhosa.

Entretanto, para quem é médium desde que nasceu (como é o meu caso) e vive cercado de fenômenos que outras ciências não explicam e que poderiam comprometer a saúde mental se não fossem aceitos como mediúnicos e se não tivéssemos instrumentos para lidar com isso, o espiritismo deixa de ser uma filosofia do limbo acadêmico, para se tornar uma necessidade e uma possibilidade de equilíbrio e orientação.

Essa é uma das grandes contribuições de Kardec: como estava convencido da realidade do mundo espiritual e do intercâmbio com os espíritos, ele não ficou indefinidamente repetindo experiências para comprovar os fenômenos e nem sequer parou nessa pesquisa inicial. Ele tratou de estudar como funcionava aquilo e de oferecer diretrizes práticas e parâmetros éticos de como lidar com a mediunidade, de maneira segura, saudável e útil.

E nessa orientação, Kardec foi único. Nunca ninguém antes dele e ninguém depois dele fez esse trabalho e de forma tão clara, tão crítica e tão competente. Por isso, acho que o Livro dos Médiuns, muito pouco estudado e aplicado no movimento espírita brasileiro, é o livro de Kardec que permanece irretocável.

Os outros trazem uma visão de mundo, uma filosofia e uma ética que para mim e para muitos fazem sentido, mas precisam ser relidas com seus contextos históricos e precisam ser transpostas para um diálogo com problemas de hoje e visões contemporâneas.

Kardec é pois uma referência, um início, uma base. Um mestre que não se intimidou em querer avançar além da mera apreciação de um fenômeno, mas quis deixar o resultado de seus diálogos com os espíritos e uma filosofia coerente, bem articulada, que pudesse nos ajudar a melhorar a nós mesmos e ao mundo.

Há em Kardec a preocupação do educador, de tornar as coisas claras, práticas, aplicáveis, úteis. Há a intenção de um reformador social de querer transformar a sociedade, torná-la mais justa, mais progressista, mais humana, mais fraterna – dentro do horizonte que era possível a um discípulo de Pestalozzi na primeira metade do século XIX.

Por isso, releio, revejo, até critico Kardec em alguns pontos (estou escrevendo um livro sobre toda essa releitura que faço), mas permaneço espírita kardecista – e hoje temos de adotar sim esse adjetivo, já que o espiritismo tomou muitas formas em nosso país. Porque o essencial de Kardec, justamente esse manejo racional e ético da mediunidade, esse entendimento progressista e pedagógico do mundo e da vida, ainda fazem muito sentido para mim e considero que ainda não deu o que tinha que dar como contribuição nesse mundo, porque ainda nem compreendido foi.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ESPIRITISMO ANTE AS IDEOLOGIAS DE ESQUERDA E DE DIREITA

  Por Elias Moraes O movimento espírita não teve como se furtar ao acirramento das disputas ideológicas no campo político partidário, observadas nas duas últimas décadas; ao contrário, foi fortemente atingido por essas disputas. A princípio, mediante manifestações ostensivas de muitas das suas principais lideranças em defesa das pautas do campo ideológico da Direita, ainda que sob a forma de uma fingida neutralidade. A essas manifestações seguiu-se uma forte reação dos que discordavam dessa postura, e que foram estigmatizados sob o rótulo de "espíritas de Esquerda". Ante o clima de confronto que se estabeleceu, o argumento mais utilizado pelos que adotavam a negação como estratégia de silenciamento das discussões era que o Espiritismo não era nem de Esquerda e nem de Direita, mas "de cima", ou "do alto", como se a doutrina espírita não tivesse posições muito bem definidas a respeito de cada um dos temas colocados em pauta pelos atores de ambos os campos ...

O AMOR É PARA SEMPRE...

Por Dora Incontri (*) (Escrevi esses pensamentos, muito sentidos, há alguns anos. Pretendia publicá-los num livro, mas antes que ficarem guardados, na memória do computador, melhor partilhar com outros que, como eu, estejam amadurecendo essa que é a maior herança divina em nós: a capacidade de amar.) Parque Nacional da Tijuca - Rio de Janeiro O amor é o oposto da indiferença. O amor nunca tanto faz, com o que o ser amado faz. Por isso se empenha sempre por um fazer de luz. O amor pode curar, salvar, elevar, educar, regenerar. Mas tudo a longo prazo, pois para se mostrar, atuar e agir, precisa muito ter paciência, perseverar, persistir, muitas, infinitas vezes perdoar… Tudo devagar. O amor desgovernado, tumultuado pelas paixões, queima os corações, provoca afastamentos, descontentamentos, dilacerações… Por isso, o amor precisa se asserenar, se suavizar, alimentando-se de eternidade!

UM PALHAÇO NA MEDIÚNICA

Existe um ponto que reúne o melhor de mim nesta curta jornada pelas estradas pedagógicas da vivência espírita: a mesa mediúnica! Lembro como agora da primeira participação, e como aquilo mudou minha percepção de mundo, com um sentimento de vastidão insondada para tão distante de todos os conceitos construídos pelos setores formais aos quais me ligava.

À MUSA ESTUPRADA

"O Rapto das Sabinas", pintura de Nicolas Poussin           Há indignações tão profundas, que só podem ser expressas em poesia, pelo menos para mim. Nos últimos meses, no meio do espetáculo constrangedor e bizarro em que o país mergulhou, a mulher brasileira foi alvo das mais absurdas violências: uma presidenta que não cometeu nenhum crime afastada do poder por um bando de criminosos, depois de ter sido xingada por uma parte da população, com as maiores baixarias e depois de ter sido ofendida por um Bolsonaro, que invocou seu torturador, num gesto de fascismo e supremo desrespeito humano; a primeira dama do presidente golpista posta como modelo de “beleza, do lar e recato”; um ministério inteiro só de homens (a maioria envolvidos com corrupção); um fundamentalismo religioso avançando no Estado, ameaçando os direitos da mulher; a visita de um ator machista, de filmes pornô, que nada tem a ver com Educação e que se ufana de ter estuprado uma mulher, no ...

COMO SUPERAR A DEPRESSÃO?

A depressão é a segunda causa de incapacidade no trabalho (a projeção é que, até 2020, seja a primeira da lista) e apenas 10% das pessoas deprimidas recebem tratamento adequado, conforme a Organização Mundial de Saúde. Infelizmente, muitas pessoas não buscam tratamento para Depressão por confundi-la com uma tristeza profunda. A causa da depressão é tida como multifatorial, isto é: converge vários fatores como o estilo de vida, o tipo de personalidade, a história pessoal e a predisposição genética. Não há um momento único ou específico em que a depressão comece. A depressão tem características neuroquímicas importantes e não depende necessariamente de um evento gatilho para se manifestar. Muitas pessoas apresentam sintomas depressivos na infância ou na adolescência. Tenho pacientes que após uma sequência de eventos traumáticos na idade adulta manifestaram a depressão. 

UM TAL SR. M...

                                                Anos atrás o pesquisador espírita Clóvis Nunes falou de um suposto encontro entre Allan Kardec e Karl Marx. Ele se escorou em duas mensagens insertas em Obras Póstumas , de 30 de abril de 1856  (saiba mais) e de 12 de maio de 1856 (saiba mais) . Leia-se um trecho da primeira, em que o Espírito se refere a um dos presentes, que para Nunes seria Marx: “A você, Rivail, sua missão está aí (livre, a cesta virou fortemente para meu lado, como o teria feito uma pessoa que me indicasse com o dedo). A você, M..., compete a espada que não fere, mas que mata. Contra tudo o que existe, será você que virá primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo lugar, é o trabalhador que reconstrói o que foi destruído”.   ...

INVISÍVEIS TAMBÉM SE COMPRAZEM EM ILUDIR

  Por Orson P. Carrara Sabe-se que os espíritos não sabem tudo. Eles nada mais são que homens e mulheres que já deixaram a vida material ou estão para nela retornar, e que guardam conteúdos morais, intelectuais, emocionais e psicológicos, habilidades, tendências e gostos do estágio em que se encontram. Há que se lembrar que a morte não é uma varinha mágica que transforma o espírito; este terá que evoluir pelo esforço próprio visando o aprimoramento intelecto moral. E como não há privilégios, nem preferências, todos teremos que trilhar esse caminho.

INTERDEPENDÊNCIA E LIBERDADE INDIVIDUAL

      Por Doris Gandres   “A liberdade individual e a interdependência são essenciais para a vida em sociedade.” Mahatma Gandhi (1)               Hoje ainda, em geral, imaginamos que temos liberdade para realizar tudo aquilo que nos agradar, tudo que atender aos nossos interesses, independentemente de estarmos atingindo ou não a liberdade alheia. Muito frequentemente ignoramos o limite para o exercício da nossa liberdade.             Usualmente somos muito cônscios dos nossos direitos, porém muito relapsos quanto aos nossos deveres. Léon Denis nos recomenda “considerar a vida e suas responsabilidades sob um aspecto mais grave, a submeter mais estritamente nossos atos à regra austera do dever” (2).             No Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.XVII, item 7, Lázaro Espírito transmite ...

DA QUIMERA HUMANA AO VOTO ANÔMICO

        Por Jorge Luiz                   A Contradição como Condição Ontológica             A paisagem político-social contemporânea expõe com crudeza o colapso dos filtros ético-morais no exercício da cidadania, revelando um fenômeno ainda mais perverso: a eleição consagradora de indivíduos formalmente denunciados por crimes gravíssimos, impulsionada justamente pelas parcelas mais vulneráveis da população. Desprovidos de amparo social e desarmados de senso crítico por um histórico de exclusão, esses grupos tornam-se alvos prioritários de apelos religiosos instrumentalizados, em que a fé é dobrada para anestesiar o discernimento ético e sacralizar a barbárie. Ao converter a transgressão em capital político com a chancela dos próprios espoliados, o corpo social escancara a sua contradição ontológica e o ponto cego do Brasil anômico — aquele em que a desori...

DEPOIS DE HARARI: A ERA DA CONSCIÊNCIA

  Por Wilson Garcia A recente entrevista de Yuval Noah Harari ao  El País  pode ser lembrada não tanto pelas respostas que ele deu, mas pelas perguntas que provocou. Como em  Sapiens ,  Homo Deus  e  Nexus , o historiador israelense tem o dom de observar a história de cima, captando transformações que ainda mal percebemos enquanto acontecem. É bom refletir com o olhar espírita sobre isso.               Sua preocupação explícita é a Inteligência Artificial. Mas a implícita — e talvez a mais urgente — é outra: o próprio ser humano.             Durante séculos, acreditamos que nosso diferencial estava na inteligência. Hoje, começamos a descobrir que talvez esse não seja o nosso trunfo. A IA calcula melhor, memoriza mais, escreve mais rápido, traduz centenas de idiomas e analisa milhões de documentos em segundos. Se inteligência for ap...