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UM BRINDE À VIDA


           

 
         Há uma ausência, no rol das matérias escolares, de uma disciplina que provavelmente poderia tornar a vida melhor. Difícil saber como nomeá-la. Desde ainda tenra criança aprendemos o alfabeto, a linguagem, as ciências, a matemática, idiomas estrangeiros e crescemos enquanto aprendemos expressões como sociologia, filosofia, astronomia, economia medicina. Palavras que carregam em si um universo de conhecimentos que os dias nos convencem que devemos buscá-los incessantemente se quisermos atingir a maturidade da inteligência tornando-nos aptos para a prática da vida adulta.

Despertamos numa realidade nem sempre de fácil compreensão, mas pronta para ser vivida da forma como nos é apresentada. No fundo há uma herança cultural e emocional disponibilizada nas mãos que pegam as nossas e conduzem pelos primeiros caminhos. Devemos ser gratos aos corações que se abrem para nos receber muito além de sermos uma simples visita. Aportamos de um mundo (o espiritual), cujo limite é desconhecido para ajuste num outro (o físico) onde os limites são as primeiras lições. Nesse emaranhado de limitações, o que nos salva é perceber os horizontes que se movimentam utópicos e haverão de preencher os tantos vazios, cuja existência deixa de propósito para nos testar.
            Clarice Lispector, num dos seus lindos poemas, fala sobre a Precisão. Na sua leveza poética, ela nos diz: “O que me tranqüiliza/ é que tudo que existe,/ existe com uma precisão absoluta./ O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete/ não transborda nem uma fração de milímetro/ além do tamanho de uma cabeça de alfinete./ Tudo que existe é de uma grande exatidão./ Pena é que a maior parte que existe com essa exatidão/ nos é tecnicamente invisível./ O bom é que a verdade chega a nós/ como um sentido secreto das coisas./ Nós terminamos adivinhando, confusos/ a perfeição.”
            Àquela escola que nos recebeu argamassa fresca, um prolongamento da escola-lar, onde elaboramos as primeiras relações de aprender a andar, falar, correr, saltar, gerar laços, falta uma disciplina a ensinar. Funciona como se fosse um apelo silencioso da Natureza e nos interpela sem palavras, não se percebe nas conjugações verbais iniciais nem nas primeiras operações quando se aprende a somar e subtrair. Essa disciplina parece desabrochar do olhar que busca rever as cenas que fizeram daqueles primeiros passos, vividos como mera obrigação educacional, depois de crescidos e em condições de reavaliar a trajetória.
            Independente da classe social que pertencíamos, a infância nos permitia experimentar a sensação de completa mistura dos tempos, na qual passado, presente e futuro eram um só tempo, nada mais que o aquele “agora” vivido. Ali, as famílias e a escola perderam o momento de ensinar a disciplina “A Mágica do Existir”. E nos tornamos gente grande gerando problemas que empobrecem a vida. Há tempo ainda, se resgatada a criança que carregamos na alma: recapturar a emoção das pequenas coisas, ver a beleza onde ela esteja, tornar simples o que é simples, abraçar mais as pessoas, dividir mais os brinquedos para aprender a dividir o pão. Numa época tão difícil, numa conjectura em que ter razão é um motivo para atacar o outro, aprender que EXISTIR É MÁGICO é passo decisivo para diariamente erguer um Brinde à Vida. Cada lapso de tempo é o “momento-Deus” para fazermos brilhar a vida.  

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