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ORGULHO E PRECONCEITO

 

Por Doris Gandres

Existe um filme com esse título (do qual aliás gosto bastante) e que hoje tomo emprestado.

Há já um bom tempo costuma-se comemorar a data de 22 de abril como sendo a data do “descobrimento do Brasil”. Porém atualmente, no meu entender, seja exatamente esta a data ou não, nos idos de 1500, o que aconteceu foi a invasão de terras habitadas por mais de 5 milhões de pessoas de várias etnias, nações com suas culturas, costumes e crenças.

O que se deu a seguir aqui, e em muitos locais, de norte a sul desse continente depois denominado americano, foi extração de bens e riquezas dessas terras em larga escala, genocídio aos milhões, extinção de inúmeras culturas, exploração e escravização de seres humanos de todas as formas imagináveis, solapando a dignidade dos poucos que sobreviviam...

O que levou – e ainda leva, como estamos presenciando – criaturas a tais atos de abuso, de desrespeito e desamor ao próximo, inclusive pelos religiosos, à época “tementes a Deus”, senão sentimentos de orgulho e preconceito, que fazem com que se julguem superiores aos que não comungam suas ideias, sua crença, diferentes de sua etnia, de sua cor de pele, com outros gostos e práticas etc etc?

O que lhes permite impor pelas armas, por morticínio e brutalidades de todo gênero, supremacia e poder sobre outras criaturas, outros povos, outras nações?

Não foi em vão que em meados do século XIX, diante do que vinha ocorrendo pelos tempos afora e pela humanidade afora, foi dito no contexto da filosofia espírita que, por havermos feito grandes descobertas e invenções, estarmos melhor instalados e vestidos, não poderíamos nos dizer civilizados senão quando baníssemos da sociedade os vícios que a desonram (LE q.793). E ainda acrescento a isso palavras de Allan Kardec: “não basta se cubra de verniz a corrupção, é preciso extirpá-la” (Obras PóarumAs – Credo Espírita).

O orgulho e o preconceito, estampado nitidamente em tantas áreas de atividades e face a tantas situações e condições as mais diversas dos seres humanos, discriminações as mais abjetas e absurdas, fomentados pela ganância, pelo egoísmo, pela vaidade, ainda grassam abundantemente em espíritos, qual erva daninha em campos sem cultivo.

O materialismo, o fanatismo, a ânsia desmedida de poder, ainda hoje – e não se sabe até quando – alimentam o interesse pessoal desmedido que conduz a todas as mazelas que presenciamos cada vez com mais acuidade e rapidez em função dos avanços tecnológicos.

No entanto, também à luz do entendimento que a filosofia espírita nos proporciona, além de muitos outros estudos e reflexões que vimos recebendo há muito tempo, sabemos que o progresso, intelectual, ético e moral, vem se processando através as eras; que transformações individuais e coletivas, bem como revoluções sociais, se dão no sentido de alcançar e implantar justiça equânime para todos e todas, sejam quem forem e de onde forem.

Portanto, a par tudo de malefício, exploração e usurpação que os navegantes europeus, com sua vaidade, autoritarismo e arbitrariedades vieram acarretar aos povos já existentes nesse continente do outro lado do Oceano Atlântico, sem omitir suas ações e atitudes negativas e nocivas, podemos compreender a inevitabilidade do encontro – e desencontro – dos diferentes e divergentes, fator contribuinte para virmos, futuramente (quanto mais brevemente melhor), constituir uma humanidade terrena e extraterrena mais harmônica, lúcida e consciente de sua “participação na obra da criação” (LE q.132).

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