Pular para o conteúdo principal

DO TAPA AO ASSASSINATO - OS MUITOS CASOS HENRY BOREL!

 


Todas as vezes me espanto, me indigno, me revolto, quando ouço histórias – e são muitas, de pessoas de todas as idades – de maus tratos na infância, de gritos, tapas, humilhações a surras, espancamentos, marcas físicas e psíquicas, que seguem vida afora com aquele que sofreu. Muitos dos carrascos – pais, mães, padrastos e madrastas – por sua vez também foram vítimas de seus próprios pais, mães, padrastos e madrastas. Claro que a predominância é dos homens violentos. Mas há mães crudelíssimas também. E a reprodução da violência vai de geração em geração, até que alguém rompa o ciclo, vá se tratar e se negue a fazer sofrer o outro o que sofreu.

Por isso mesmo, um caso como o do casal Nardoni ou do Dr. Jairinho, que chega ao assassinato de uma criança, barbárie que considero inominável, não é algo isolado, uma anomalia, um ponto fora da curva, mas simplesmente o extremo de uma cultura arraigada na violência contra esses seres indefesos, que só precisam de amor e proteção. E ainda hoje, em pleno século XXI, temos os fundamentalistas evangélicos que recorrem ao Velho Testamento para conclamar que se apliquem varas na educação das crianças!

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, numa pesquisa divulgada em abril, nos últimos dez anos (2010-2020), mais de 100 mil crianças e adolescentes morreram no Brasil vítimas de maus-tratos. Duas mil desse número, crianças até 4 anos. Não estou aqui falando do genocídio praticado contra crianças e adolescentes geralmente negros nas comunidades do Rio e de São Paulo, com balas perdidas ou certeiras. Esse é outro capítulo tenebroso da história. Estou falando aqui de crianças mortas em casa, por pessoas que supostamente deveriam dar a vida por elas.

O assunto dá engulhos e há semanas que estou ensaiando escrever sobre isso, desde o caso do menino Henry Borel. Quando penso nas crianças que amo em minha família – graças a Deus a salvo de tal barbárie – e penso nas crianças mortas, torturadas, espancadas, sinto-me devastada. Como educadora, não suporto sequer imaginar essas cenas.

A questão é que a violência contra crianças sempre foi naturalizada com frases como: “precisa apanhar para aprender”; “apanhei e estou aqui”, “apanhei e sobrevivi”. Pessoas que não consideram que os direitos humanos devam ser respeitados com adultos e pode-se torturar e matar quando se achar necessário, também ignoram os direitos da criança à sua integridade física, à sua dignidade, à sua saúde psíquica. Não sabem ou não querem saber que criança precisa de amor, diálogo e atenção. Não é mera coincidência que Dr. Jairinho é um miliciano, que já participou da tortura de um jornalista e é apoiador do desgoverno atual.

Penso que a grande herança de um sadismo implícito em nossa cultura brasileira vem da época da escravidão. Um povo que via pessoas açoitadas na rua, torturadas nas senzalas e introjetou a violência contra os mais fracos como algo natural (e isso tanto os carrascos quanto as vítimas).

Mas, pode-se dizer, que há uma distância infinita entre um tapa na bunda e um assassinato. Há e não há. Há a distância de alguém que perde um minuto o controle ou aquele que acha que um tapinha não faz mal e é necessário para educar, de alguém que tem uma psicopatologia perversa e não sente um pingo de empatia nem com uma criança. Mas ao mesmo tempo, a distância pode se encurtar porque tudo talvez comece com pequenas violências e avança para surras, espancamentos e num momento adiante vira uma tragédia fatal.

Criança não pode levar nenhum tapa, não deve ser tratada aos gritos, não pode ser humilhada, desqualificada, chamada de “burra”, “mentirosa”, “peste” … ou qualquer outro adjetivo, que muito repetido, acaba por lhe arrancar a autoestima. Qualquer violência física ou simbólica deixa marcas e feridas que trarão complicações emocionais na vida adulta, tornando inclusive a própria pessoa reprodutora de violência.

O que estamos assistindo no Brasil atualmente é o transbordamento à luz do dia desse sadismo do inconsciente coletivo das massas. As pessoas identificam nesses milicianos no poder seus pais-carrascos, seus maridos violentos, suas mães cúmplices da violência e se sentem em casa, à vontade. Acham natural o que foi sempre natural para elas.

Temos de refundar o Brasil a partir do que há de melhor e elevado, de um educador que falava de amorosidade como Paulo Freire; de uma poeta que brincava com as palavras para falar com as crianças como Cecília Meirelles; de músicas infantis leves e carinhosas como as de Vinicius e Toquinho e de todos os homens e mulheres que sabem que a infância é sagrada, tem que ser protegida e amparada, jamais eliminada, pisoteada, traumatizada!

Terapia para o Brasil e educação amorosa para todas as crianças! É preciso uma militância sem tréguas para acabar com essa covardia. Todos os grupos vulneráveis na sociedade, os negros, as mulheres, os LGBT+ gritam, reivindicam, exigem seus direitos. E as crianças, quem fala por elas?

 

*Texto originalmente publicado no Jornal GGN, dia03/05/2021

Comentários

  1. Ou seja: o caso é apenas a ponta de um iceberg que abafa o choro de incontáveis crianças.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

SOCIALISMO E ESPIRITISMO: Uma revista espírita

“O homem é livre na medida em que coloca seus atos em harmonia com as leis universais. Para reinar a ordem social, o Espiritismo, o Socialismo e o Cristianismo devem dar-se nas mãos; do Espiritismo pode nascer o Socialismo idealista.” ( Arthur Conan Doyle) Allan Kardec ao elaborar os princípios da unidade tinha em mente que os espíritas fossem capazes de tecer uma teia social espírita , de base morfológica e que daria suporte doutrinário para as Instituições operarem as transformações necessárias ao homem. A unidade de princípios calcada na filosofia social espírita daria a liga necessária à elasticidade e resistência aos laços que devem unir os espíritas no seio dos ideais do socialismo-cristão. A opção por um “espiritismo religioso” fundado pelo roustainguismo de Bezerra Menezes, através da Federação Espírita Brasileira, e do ranço católico de Luiz de Olympio Telles de Menezes, na Bahia, sufocou no Brasil o vetor socialista-cristão da Doutrina Espírita. Telles, ao ...

OS FILHOS DE BEZERRA DE MENEZES

                              As biografias escritas sobre Bezerra de Menezes apresentam lacunas em relação a sua vida familiar. Em quase duas décadas de pesquisas, rastreando as pegadas luminosas desse que é, indubitavelmente, a maior expressão do Espiritismo no Brasil do século XIX, obtivemos alguns documentos que nos permitem esclarecer um pouco mais esse enigma. Mais recentemente, com a ajuda do amigo Chrysógno Bezerra de Menezes, parente do Médico dos Pobres residente no Rio de Janeiro, do pesquisador Jorge Damas Martins e, particularmente, da querida amiga Lúcia Bezerra, sobrinha-bisneta de Bezerra, residente em Fortaleza, conseguimos montar a maior parte desse intricado quebra-cabeças, cujas informações compartilhamos neste mês em que relembramos os 180 anos de seu nascimento.             Bezerra casou-se...

SOBRE ATALHOS E O CAMINHO NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO JUSTO E FELIZ... (1)

  NOVA ARTICULISTA: Klycia Fontenele, é professora de jornalismo, escritora e integrante do Coletivo Girassóis, Fortaleza (CE) “Você me pergunta/aonde eu quero chegar/se há tantos caminhos na vida/e pouca esperança no ar/e até a gaivota que voa/já tem seu caminho no ar...”[Caminhos, Raul Seixas]   Quem vive relativamente tranquilo, mas tem o mínimo de sensibilidade, e olha o mundo ao redor para além do seu cercado se compadece diante das profundas desigualdades sociais que maltratam a alma e a carne de muita gente. E, se porventura, também tenha empatia, deseja no íntimo, e até imagina, uma sociedade que destrua a miséria e qualquer outra forma de opressão que macule nossa vida coletiva. Deseja, sonha e tenta construir esta transformação social que revolucionaria o mundo; que revolucionará o mundo!

UMA PROSA COM DIVALDO

“E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo”. – (Lucas, 3:14). Ao longo dos nossos estudos evangélico-doutrinários, percebemos que a história do Cristianismo, bem como a do Espiritismo, são ricas de passagens significativas relacionadas a militares. E estes, mesmo empunhando uma arma como instrumento profissional, mantiveram, acima de tudo, a sua fé em Deus e confiança em Jesus, Modelo e Guia de todos os cristãos sinceros, independente das suas atribuições. Percebemos também que o militar espírita, longe de se enganar como sendo um privilegiado possuidor de poderes temporais, diferenciado das demais pessoas, estará sempre atento para com as suas responsabilidades respeitando, acima de tudo, as Superiores Leis da Vida, pelas quais se orienta. Retirando toda e qualquer pretensão e ostentação, respeitando os vultos conhecidos e desconhecidos da his...

ESCOPO SOCIAL ESPÍRITA

  Por Doris Gandres                Deolindo Amorim, Léon Denis e Herculano Pires, entre alguns outros do espiritismo contemporâneo, compreenderam o cunho social da doutrina e, sem concessões ou meias palavras, trabalharam arduamente à sua época para despertar o meio e o movimento espírita quanto a essa implicação dos princípios espiritistas.

ESPIRITISMO E POLÍTICA¹

  Coragem, coragem Se o que você quer é aquilo que pensa e faz Coragem, coragem Eu sei que você pode mais (Por quem os sinos dobram. Raul Seixas)                  A leitura superficial de uma obra tão vasta e densa como é a obra espírita, deixada por Allan Kardec, resulta, muitas vezes, em interpretações limitadas ou, até mesmo, equivocadas. É por isso que inicio fazendo um chamado, a todos os presentes, para que se debrucem sobre as obras que fundamentam a Doutrina Espírita, através de um estudo contínuo e sincero.

REFLEXÕES PARA O ANO QUE SE ANUNCIA...

  Sinta, chega o tempo de enxugar o pranto dos homens. Se fazendo irmão e estendendo a mão... Venha, já é hora de acender a chama da vida e fazer a Terra inteira feliz! (A Paz. Homenagem a Paulinho/Roupa Nova)   É bem comum, a cada final de ano, pensarmos sobre o ano que finda e projetarmos expectativas, sonhos e planos para o ano vindouro. Fazer isso é bom! Afinal, pensar sobre o que fizemos, avaliar o que houve de bom e o que precisa ser melhorado pode nos ajudar a depurar nossas ações, para tentarmos ser melhores e, consequentemente, fazer um ano melhor. Santo Agostinho nos ensinou esse exame de consciência. Toda noite, ele passava o dia a limpo, observando seus atos e pensando a melhor maneira de corrigir seus erros e chegar mais perto de Deus.

REFORMAR OU TRANSFORMAR? REFORMA ÍNTIMA OU TRANSFORMAÇÃO ESPIRITUAL?

        Por Marcelo Henrique   O conjunto de elementos que impregnam o conceito de “reforma íntima” repete muitos chavões de culturas e abordagens não espíritas, pertencentes a ideologias religiosas em que há a “obrigação” de seguir certas prescrições, sob pena de… É a cultura do temor, do medo e da culpa. *** Alguns conceitos são entronizados e se enraízam de tal modo em Filosofias que é difícil, depois, retirá-los ou entendê-los na sua real essência. No caso do Espiritismo, eles surgem a partir de alguma declaração – seja de um encarnado, médium ou dirigente, seja de um desencarnado – e vão ficando, ficando… Passam a ser retórica tradicional e, não raro, viram “figurinha fácil” no álbum das condutas humanas. Falemos, pois, de uma delas: a decantada reforma íntima. Onde surgiu? Quem foi o primeiro a mencionar? Em que contexto foi dito? Qual era o alcance? Que objetivos se tinha? Qual a relação deste conceito com o Espiritismo?

O ESPIRITISMO É PROGRESSISTA

  “O Espiritismo conduz precisamente ao fim que se propõe todos os homens de progresso. É, pois, impossível que, mesmo sem se conhecer, eles não se encontrem em certos pontos e que, quando se conhecerem, não se deem - a mão para marchar, na mesma rota ao encontro de seus inimigos comuns: os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância.”   Revista Espírita – junho de 1868, (Kardec, 2018), p.174   Viver o Espiritismo sem uma perspectiva social, seria desprezar aquilo que de mais rico e produtivo por ele nos é ofertado. As relações que a Doutrina Espírita estabelece com as questões sociais e as ciências humanas, nos faculta, nos muni de conhecimentos, condições e recursos para atravessarmos as nossas encarnações como Espíritos mais atuantes com o mundo social ao qual fazemos parte.

DIVERSIDADE NÃO JUSTIFICA DESIGUALDADE

  Por Alexandre Júnior                A justiça não se estabelece por si só. É necessário que a façamos. Quando nos negamos a combater, debater, encarar, perceber e estudar as desigualdades sociais, menos estaremos aptos a produzir, de forma consciente e politicamente, ações de enfrentamento às injustiças, bem como posturas afirmativas de produção de igualdade e justiça social. Em que pese a insistência nefasta de toda uma estrutura social hegemônica, que, de forma opressora, transforma diversidade em desigualdade.